Carolina, Chimamanda e Djamila

Ana Severo
2 min readJul 25, 2020

O que têm Carolina, Chimamanda e Djamila em comum? O Brasil homenageia os escritores e as mulheres negras no dia 25 de julho, Dia do Escritor e Dia da Mulher Negra. Alvissareira coincidência, quem sabe profecia de futuro. O tempo pregresso não é lá tão abonatório. Entre as décadas de 70 e 80, quando estive em bancos escolares, nunca me foi recomendada a leitura de uma escritora negra. Àquele tempo, também não se destacava que o imortal Machado de Assis era negro. Mulheres, mesmo que brancas, eram poucas no conjunto de leituras obrigatórias aos vestibulandos de então. O que é considerado universal, em geral, foi escrito por um homem, se não branco, de negritude esquecida.

Carolina Maria de Jesus foi uma mulher negra, catadora de lixo, moradora de favela em São Paulo. Amava livros. Escreveu um improvável diário na década de 50, onde relatou seu duro cotidiano: “Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar, eu escrevia”, confessa. Quarto de Despejo — diário de uma favelada é um best seller, traduzido para várias línguas, que atingiu surpreendente sucesso ainda na década de 60, quando da sua publicação. Depois do primeiro livro, Carolina publicou mais seis livros. Ainda atuais, são relatos contundentes das vidas de muitas mulheres, negras em sua maioria. Não, eu não estudei Carolina de Jesus. Ela já era uma invisível escritora best seller.

A nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie é mulher de outro tempo, e outra terra. Seus livros de uma fala ligeira estão rodando o mundo nas prateleiras de melhores livros. Em Americanah, Chimamanda expõe com lucidez bem humorada o racismo e machismo da sociedade americana, vivido por uma jovem nigeriana. A escritora tem um olhar brilhante a respeito das transformações políticas e culturais de seu próprio país e provoca a todos com o TedTalk e pocket book: Somos todos feministas.

A filósofa brasileira Djamila Ribeiro tem sido grande defensora da produção intelectual da mulher negra no Brasil, sendo uma das principais vozes do feminismo negro no país. Em Lugar de Fala, a intelectual mostra a importância de que as mulheres negras façam suas próprias narrativas, como sujeitos de suas histórias. Segundo ela: “estamos falando em nosso nome”.

Em nome dessas três mulheres escritoras negras homenageio a todas e todos escritoras e escritores que nos sensibilizam com suas histórias. Carolina, Chimamanda e Djamila têm em comum a capacidade de emocionar leitores de qualquer tempo, gênero ou raça. A literatura tem disso, rompe os limites, é capaz de nos levar para fora e, ao mesmo tempo, descortinar nosso mais profundo ser.

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Ana Severo

Amante da literatura. Contadora de histórias. Economista, Gestora de políticas públicas, feminista, engajada em ações por um mundo de mais cuidado.