Cidades que cuidam

Ana Severo
4 min readJun 20, 2020
Garis limpam a cidade.

CUIDADO deve ser o valor central de uma Administração municipal no mundo pós-pandemia. Embora essencial para a vida, não falamos explicitamente em uma gestão pública que cuida. Na política, o cuidado parece ter a mesma invisibilidade que os trabalhos milenares de geração, nutrição e manutenção da vida humana. As maiores ameaças que vivemos hoje, no entanto, não são as guerras, mas as catástrofes sociais, sanitárias e ambientais. Para esses desafios, homens dispostos a matar ou morrer não irão nos salvar, mas seres humanos, mulheres e homens, capazes de cuidar.

A pandemia veio a acentuar a crise dos cuidados que já atingia níveis descontrolados em 2019 (OXFAM, 2020). Expõe a vulnerabilidade econômica de grande parte da população, a necessidade de cuidar de si, dos seus e da sua comunidade. Nunca esteve tão clara a nossa interdependência, ninguém vai se salvar sozinho numa casta isolada. Não por acaso, países que adotaram posturas firmes de cuidado logo no início da pandemia como a Nova Zelândia, a Alemanha, a Islândia, a Finlândia, a Noruega, a Argentina, o Paraguai vêm tendo melhores resultados do que aqueles que a minimizaram como a Itália, os Estados Unidos, o Reino Unido e o Brasil.

A desvalorização do cuidado está na essência da desigualdade social, da crise ambiental, do mau uso dos recursos públicos, da deterioração dos equipamentos e vias públicas, da violência, de muitas doenças físicas e psíquicas. É nas cidades que as pessoas vivem. Tendo uma população cada vez mais envelhecida, ao mesmo tempo que as crianças e adolescentes também não têm suas necessidades atendidas, cuidar é um desafio para as cidades.

Por outro lado, está totalmente equivocado o suposto conflito entre cuidado e desenvolvimento econômico. As atividades de cuidado são um segmento econômico com grande potencial para o qual a cidade é vocacionada. Economia do cuidado é, num sentido estrito, associada aos cuidados com a vida humana: “engloba as atividades desempenhadas, gratuitamente ou não, por pessoas que se dediquem a prestar serviços orientados à satisfação de necessidades físicas ou psicológicas de terceiros bem como à promoção da criação e desenvolvimento de crianças e jovens. (…) Abarca uma infinidade de ocupações, como o trabalho doméstico, remunerado ou não, o serviço prestado por cuidadores de idosos e pessoas com deficiência, os serviços prestados por profissionais de saúde em centros hospitalares bem como os serviços prestados no âmbito de creches e berçários.” (Souza, 2017).

Ampliando o conceito de cuidado para a sustentabilidade ambiental, assistência social, zelo pelos recursos e equipamentos públicos, preservação da cultura de uma comunidade, pesquisas voltadas à vida, pode-se perceber que são segmentos com grande potencial econômico e de inclusão social. Uma cidade que cuida gera oportunidades para os seus munícipes. O desenvolvimento econômico precisa estar a serviço das pessoas.

Valorizar o cuidado está ainda no centro da discussão de igualdade de gênero. Se queremos uma sociedade que cuida, precisamos cuidar de quem cuida. Relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2018) destaca que o trabalho de cuidado deve aumentar nos próximos anos devido a questões demográficas, socioeconômicas e ambientais, porém esses trabalhos são majoritariamente desenvolvidos por mulheres, sem remuneração ou em situações precarizadas. As mulheres ainda dedicam muito mais horas aos cuidados de filhos, idosos, casa, do que os homens, o que lhes dificulta o desempenho de atividades remuneradas no mercado de trabalho.

Muitas catástrofes não estão sob o nosso controle, como as pandemias - elas acontecem. Resta a humildade de aceitar que não somos deuses. Assim como mantemos Forças Armadas de prontidão, equipadas para proteger o país de uma eventual invasão inimiga, precisamos ter prontidão para crises sanitárias e ambientais que, aliás, têm probabilidade muito maior de acontecer, especialmente no Brasil, do que as guerras. É nossa decisão organizar o país e nossas cidades para prevenir, mitigar ou reagir nas crises de forma a minimizar seus impactos sobre todas as pessoas, não recaindo os danos, como estamos vendo hoje, sobre os mais vulneráveis. Precisamos escolher governantes que priorizem as pessoas, a sustentabilidade ambiental e cultural, a ciência voltada à vida. Se o novo normal que emergir desta crise não tiver o cuidado como um valor central, nenhuma lição teremos aprendido.

Referências:

OXFAM Brasil. Relatório Tempo De cuidar — O trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade, janeiro de 2020. Disponível em https://rdstation-static.s3.amazonaws.com/cms/files/115321/1579272776200120_Tempo_de_Cuidar_PT-BR_sumario_executivo.pdf, consultado em 18 de junho de 2020.

Organização Internacional do Trabalho — OIT. Care Work and Care Jobs — for the future of decent work, Genebra, 2018. Disponível em https://www.ilo.org/global/publications/books/WCMS_633135/lang--en/index.htm, consultado em 19 de junho de 2020.

Souza, Iuri Gregório. Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados, 2017, disponível em https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/estudos-e-notas-tecnicas/publicacoes-da-consultoria-legislativa/fiquePorDentro/temas/economia-do-cuidado-set-2017/economia-do-cuidado, consultado em 18 de junho de 2020.

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Ana Severo

Amante da literatura. Contadora de histórias. Economista, Gestora de políticas públicas, feminista, engajada em ações por um mundo de mais cuidado.